Blog dos Abraços

Algumas histórias que se abraçam.

Folhas Secas

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Folhas Secas

A chave estava perdida há muito tempo e ela a encontrou na caixa de costura da mãe.

O pai morrera sufocado pela fumaça após ver sonhos de grandeza destruídos pelos canalhas que o enganaram. O irmão terminara seus dias espumando pela boca apesar de ter lutado contra aquele vício maldito. A mãe encerrara a vida derrotada pela saudade. O noivo desaparecera sem deixar rastros depois de arrancar a pureza do corpo e o sossego da alma.

Ela guardava todas as dores passivamente entre o hospital onde cuidava de pacientes terminais e o apartamento. Sentava na poltrona e se envolvia com as personagens e tramas dos livros que lia até dormir com a cabeça recostada.

Foi morar naquela velha casa de uma cidade do interior quando o barulho das buzinas e sirenes de ambulância, a correria das pessoas e carros, os gritos de dor dos pacientes e o choro alheio começaram a amargurá-la. Cultivava uma horta, cuidava das flores, recolhia as frutas das velhas árvores e criava galinhas. Ia ao armazém apenas para comprar mantimentos e passava no banco para retirar a mísera aposentadoria. Vivia silenciosamente sob o olhar atento do gato.

Pegou a chave e atravessou o quintal coberto de folhas secas. Abriu o quarto de cacarecos. Cheirava a mofo e estava coberto de teias de aranha. Ali guardava todas as recordações desde que se mudara. Avistou logo a pintura dos pais que o irmão fizera em momentos de lucidez. Abriu o armário e viu a roupa de bailarina e o vestido de noiva nunca usado. Na cômoda, estava o pianinho rosa, bibelôs, perfumes vencidos e uma caixinha de música. Nas gavetas, cartas, cadernos de escola, diários, cartões-postais e fotos antigas. Nas prateleiras, porta-retratos, livros e objetos de antigas viagens. Destampou o baú e viu fantasias, vestidos floridos, maiôs e uniformes brancos. Na parede, o relógio parado e o espelho. Olhou e viu uma velha enrugada e magra. Uma lágrima escorreu e caiu na gola preta do vestido.

Dolores não tinha parentes vivos e escolhera o isolamento. Não queria lembrar-se das dores e, naqueles dias, esperava a próxima estação. Resistiria ao inverno tão próximo?

Não fosse aquele quarto, não saberia mais seu nome.

Fátima Campilho

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Autor: fatimacampilho

Professora de Língua Portuguesa e Mediadora de Leitura.

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